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Casas e poder

Cartelle · Castrelo de Miño · Beade · Pazos de Arenteiro

As Ordens Militares

As ordens militares detinham igrejas, terras e rendas. Beade e Pazos de Arenteiro mostram como as comendas ligavam religião e economia do vinho.

Galicia · O RibeiroA região
7Capítulos
2Fontes e leituras
Ilustração interpretativa: administração de uma propriedade rural, viticultura e travessia fluvial na Galiza medieval
Ilustração histórica · Cena imaginada
Por que importa aquiOrdens militares · Terra e vinho

Uma comenda era um património e jurisdição local de uma ordem. Beade e Pazos de Arenteiro concretizam esta história: igrejas, rendas e comércio do vinho ligavam as instituições religiosas à vida das aldeias. Distinga Hospitalários, Santo Sepulcro e Templários: uma cruz medieval não identifica, só por si, uma ordem.

Templar cross pattéeHospitaller Maltese cross

As Cruzes

Ilustrações convencionais da cruz vermelha do Templo e da cruz de oito pontas do Hospital. O brasão de Castrelo recorda São João; as esculturas locais identificam-se pelas datas, edifícios e documentos.

O Templo·1120 — 1312

O Templo na Galiza: casas, igrejas e rendas

Ilustração interpretativa: cavaleiros templários a atravessar o campo galego
Ilustração histórica · Cena imaginada

O Templo estabeleceu casas e propriedades na Galiza durante o século XII, no mundo da peregrinação, do patronato régio e das rendas agrárias. Os documentos medievais e a investigação de Almudena Bouzón Custodio identificam possessões em Faro, Amoeiro, Coia, Canabal e outros centros. Uma comenda era uma casa administrativa de direitos dispersos; não necessariamente um castelo que vigiasse cada caminho próximo.

Um acordo de Celanova de 1142 menciona os seniores caballarie de Iherusalem e um hospital em Portella de Samuel. Os historiadores divergem sobre se esta referência antiga corresponde ao Templo ou ao Hospital de São João. A expressão só não deve tornar-se prova indiscutível da primeira fundação templária galega. Distinguir as ordens é essencial para compreender Cartelle e Castrelo de Miño.

  • Património templário galego: documentado e distinto do hospitalário.
  • Acordo de Celanova de 1142: atribuição a uma ordem discutida.
  • Comenda: administração de um património disperso, não automaticamente uma fortaleza.
Almudena Bouzón Custodio · La Orden del Temple en el Reino de Galicia (USC, 2022)
A paróquia e o Hospital·Baixa Idade Média — 1517

Cartelle e o património hospitalário de Quiroga

Ilustração interpretativa: pequena igreja românica rural e comunidade agrícola na Galiza medieval
Ilustração histórica · Cena imaginada

Santa María de Cartelle fazia parte de um extenso património hospitalário. O estudo de Adrián Arcaz Pozo sobre São João na Galiza, baseado no levantamento patrimonial de Quiroga de 1517, inclui o couto de Cartelle entre as posses da comenda. Quiroga administrava direitos dispersos muito além da sua sede no vale do Sil. É uma ligação institucional documentada, em vez de deduzida da forma da igreja.

A distinção importa porque alguns relatos populares chamam templária à paróquia e ao mesmo tempo ligam-na a Quiroga. O levantamento identifica o Hospital de São João; não comprova uma propriedade templária anterior. A igreja barroca conservada pertence a outra história construtiva e as suas três naves não identificam uma ordem medieval. O levantamento oferece uma base histórica mais firme: jurisdição, rendas e patronato registados por uma instituição.

  • 1517: o levantamento de Quiroga inclui Santa María de Cartelle.
  • Quiroga: comenda hospitalária com património disperso.
  • Fonte: AHN, Órdenes Militares, caixa 7587, n.º 125, citado por Arcaz Pozo, p. 268.
Adrián Arcaz Pozo · Implantación y desarrollo territorial de la Orden Militar de San Juan de Jerusalén en Galicia (1995), p. 268
O Hospital·1172 — Época Moderna

Castrelo, Beade e Ribadavia: igrejas e rendas vinícolas

Ilustração interpretativa: hospitalidade medieval oferecida a viajantes numa modesta casa de granito
Ilustração histórica · Cena imaginada

A 6 de dezembro de 1172 Fernando II de Leão concedeu Santa María de Castrelo de Miño ao Hospital de São João de Jerusalém. A tese de Bouzón Custodio identifica a igreja chamada Castrelo de Veiga nos documentos com a atual Castrelo de Miño. A sua história hospitalária precede, portanto, em 140 anos a supressão do Templo.

Os direitos mudavam através de sucessivos atos régios. Uma escritura de 10 de março de 1281, estudada por Arcaz Pozo, incluiu Castrelo na permuta projetada entre Afonso X e o Hospital. Enumerava vinhas, campos, moinhos, pesqueiras e rendas eclesiásticas. Senhorio e patronato descrevem um conjunto de direitos sobre terras e pessoas, sem demonstrar uma guarnição permanente que protegesse cada viajante.

Beade e Ribadavia mostram melhor a economia do vinho. A igreja, o hospital e a casa do prior de São João em Ribadavia ligaram-se à comenda cujo centro passou a Beade. Levantamentos patrimoniais e foros medievais registam lagares, adegas e propriedades arrendadas. Casas nobres, foreiros e proprietários religiosos relacionavam-se pelo cultivo, cobrança de rendas e litígios. A posição de Castrelo nesta rede deve seguir-se em documentos datados, pois os títulos e dependências das comendas mudaram.

  • 6 de dezembro de 1172: doação de Santa María de Castrelo a São João.
  • 10 de março de 1281: Castrelo figura na permuta projetada por Afonso X.
  • Beade–Ribadavia: igrejas, hospital, lagares, adegas e foros.
  • Senhorio, patronato eclesiástico e propriedade eram direitos distintos.
Adrián Arcaz Pozo · San Juan de Jerusalén en Galicia (1995), pp. 262, 269–272; Bouzón Custodio (2022), p. 159 n. 600
Corte e poesia·Séculos XI — XII

Joseph ibn Ferruziel: médico judeu na corte

Ilustração interpretativa: eruditos ibéricos anónimos a consultar documentos junto a uma janela iluminada pela luz do dia
Ilustração histórica · Cena imaginada

Joseph ibn Ferruziel, também conhecido por Cidellus ou «o pequeno Cid», foi médico e conselheiro judeu ligado a Afonso VI. A poesia hebraica contemporânea oferece uma entrada mais firme no seu mundo do que as árvores posteriores: Yehuda Halevi dedicou-lhe elogios e a célebre jarcha romance dirige-se pelo nome a Cidiello. Serviço cortesão, patronato e escrita multilingue encontram-se na mesma carreira.

Genealogias posteriores identificam o «Felez Ferruz» da crónica do Cid com um suposto pai de Joseph e ligam Ferruziel a Benveniste através de Meshulam. As fontes académicas aqui usadas não comprovam essas ligações. Ferruziel ilustra um contexto anterior do serviço judaico em cortes cristãs; não demonstra uma filiação até uma família galega nem relação pessoal com as ordens militares posteriores.

  • Joseph ibn Ferruziel: médico e conselheiro ligado a Afonso VI.
  • Cidellus / Cidiello: nome usado nos poemas a ele dirigidos.
  • A poesia de Yehuda Halevi documenta o patronato contemporâneo.
  • A filiação proposta Ferruziel–Benveniste continua sem comprovação aqui.
Elena Romero · Yehudá Haleví: su vida en verso (Darom 4, 2022), pp. 73–87
Os Arrendadores·Séculos XIII — XV

Benveniste e Cavallería: uma comparação aragonesa

Ilustração interpretativa: elaboração de documentos eruditos ibéricos no final da Idade Média junto a uma janela iluminada pela luz do dia
Ilustração histórica · Cena imaginada

A história Benveniste-Cavallería pertence sobretudo à coroa de Aragão. A entrada especializada da Encyclopaedia Judaica descreve membros do século XIII como homines templi, homens ligados ao Templo. Gerações posteriores serviram outras instituições: Judah Benveniste arrendou receitas eclesiásticas de Saragoça e do Hospital de São João, enquanto Vidal de la Cavallería participou em direitos de cunhagem em 1372. Eram pessoas e épocas diferentes; o Templo estava dissolvido desde 1312.

A comparação mostra que patrimónios militares e eclesiásticos podiam contratar administradores judeus, sem tornar esse trabalho universal ou exclusivo de uma comunidade. Não documenta uma administração Benveniste de Cartelle ou Castrelo. No Ribeiro, o exemplo local mais claro é Abrahám de León, agindo por Diego Pérez Sarmiento num aforamento conservado: oficial, representado, propriedade e obrigação identificados, não uma ligação inferida pela proximidade.

  • Aragão do século XIII: homines templi da família Cavallería.
  • O serviço posterior à Igreja e ao Hospital não implica servir um Templo já dissolvido.
  • O exemplo oferece uma comparação, não prova de administração galega.
Encyclopaedia Judaica · Cavalleria (Caballeria), De la
A Queda·1307 — 1371

Quando os Templários Caíram: A Dissolução e as Suas Consequências

Ilustração interpretativa: prisão de templários e confisco dos seus bens
Ilustração histórica · Cena imaginada

As detenções ordenadas por Filipe IV em França em 13 de outubro de 1307 abriram a crise que terminou com a supressão do Templo por Clemente V no Concílio de Vienne de 1312. A bula Ad providam destinou grande parte do património ao Hospital de São João, mas a aplicação variou entre reinos. Portugal criou a Ordem de Cristo em 1319; a coroa de Aragão estabeleceu Montesa em 1317. Nenhum caso foi uma transferência imediata de todo o património aos hospitalários.

Em Castela e na Galiza, direitos templários passaram pela coroa, casas nobres e instituições eclesiásticas durante décadas. Bouzón Custodio estuda um caso preciso: em 26 de setembro de 1371 Enrique II concedeu antigos bens templários ao deão e cabido de Santiago. A unidade administrativa chamada Tença do Temple surge depois nos registos catedralícios, em 1393. Os litígios posteriores com o conde de Lemos mostram que uma mercê régia não assegurava a posse pacífica.

A ligação de Castrelo a São João datava de 1172, independentemente dessa redistribuição. A origem distinta explica por que um relato único de «dissolução templária, herança hospitalária, apropriação fidalga» não descreve todas as igrejas e propriedades locais. Cada uma possui a sua cadeia de direitos, transmissões e litígios.

  • 1307: detenções de templários em França.
  • 1312: supressão pontifícia em Vienne.
  • 1317: Montesa em Aragão; 1319: Cristo em Portugal.
  • 26 de setembro de 1371: mercê ao deão e cabido de Santiago.
  • 1393: registo posterior da Tença do Temple catedralícia.
Almudena Bouzón Custodio · A Tença do Temple y el cabildo compostelano (CSIC, 2024)
Património·Atualidade

Das comendas às casas nobres

Em Pazos de Arenteiro, a comunidade medieval do Santo Sepulcro foi incorporada em São João em 1542. García Tato e Otero Piñeyro Maseda reconstituem as suas igrejas, direitos paroquiais e rendas, rejeitando expressamente a antiga atribuição templária de Astureses. Santo Sepulcro e Hospital eram instituições distintas antes desta incorporação.

Um exemplo arquivístico posterior liga as comendas às famílias proprietárias aqui estudadas. Em 1625 Jerónimo Feijóo, vereador de Allariz, autorizou o filho Antonio Feijóo de Ulloa a concorrer por três anos de rendas de Quiroga. O inventário oficial do arquivo de Ourense regista esta procuração. Documenta um arrendamento de rendas proposto, sem comprovar que a proposta venceu nem que os homens eram cavaleiros da ordem. Contratos assim mostram um contacto prático entre instituições e famílias.

O brasão municipal de Castrelo recorda ainda São João. Igrejas e cruzes esculpidas conservam a memória institucional; escrituras e contas explicam o trabalho que a sustentava. Juntas revelam uma história de rendimentos agrários, autoridade paroquial e direitos negociados no Ribeiro.

  • 1542: Pazos de Arenteiro incorporado em São João.
  • 1625: procuração de Jerónimo Feijóo para as rendas de Quiroga.
  • As cruzes conservam memória; os documentos identificam direitos e obrigações.
Isidro García Tato e Pablo S. Otero Piñeyro Maseda · O Santo Sepulcro na Galiza (CSIC, 2012)

Figuras-chave

Patronos régios, oficiais patrimoniais e comparações ibéricas

Fernando II de Leão

1137 — 1188
Patrono régio das ordens: apoiou São João em Portomarín e Castrelo e a irmandade que se desenvolveu como Santiago. Cada instituição tinha património e direitos próprios.

Papa Clemente V

1264 — 1314
Suprimiu o Templo em 1312 no Concílio de Vienne. A redistribuição patrimonial seguiu depois caminhos diferentes na península.

Joseph ibn Ferruziel «Cidellus»

final do séc. XI–início do XII
Médico e conselheiro judeu ligado a Afonso VI. Os poemas a Cidellus documentam o patronato; aqui não se comprova uma filiação Ferruziel–Benveniste.

Benveniste-Cavallería

Séculos XIII — XV
A história Benveniste-Cavallería pertence sobretudo à coroa de Aragão. A entrada especializada da Encyclopaedia Judaica descreve membros do século XIII como homines templi, homens ligados ao Templo. Gerações posteriores serviram outras instituições: Judah Benveniste arrendou receitas eclesiásticas de Saragoça e do Hospital de São João, enquanto Vidal de la Cavallería participou em direitos de cunhagem em 1372. Eram pessoas e épocas diferentes; o Templo estava dissolvido desde 1312.

Henrique II de Trastâmara

1334 — 1379
Concedeu antigos bens templários ao deão e cabido de Santiago em 26 de setembro de 1371. A mercê precede o nome administrativo Tença do Temple e não terminou os litígios de posse.

Abrahám de León

meados do séc. XV
Oficial judeu documentado como procurador de Diego Pérez Sarmiento. O aforamento conservado identifica uma operação patrimonial específica; não comprova serviço a uma ordem militar.

Datas-chave

  1. c. 1120

    Os Cavaleiros Templários são fundados em Jerusalém por Hugo de Payns para proteger os peregrinos na Terra Santa
  2. 1129

    O Concílio de Troyes reconhece formalmente os Cavaleiros Templários como ordem religiosa militar
  3. 1142

    O acordo de Celanova menciona «seniores caballarie de Iherusalem». Discute-se a atribuição ao Templo ou Hospital; não é uma primeira referência templária indiscutível.
  4. 1158

    Fernando II de Leão doa Santa Mariña à Ordem de São João em Portomarín
  5. 1170

    A irmandade de Cáceres, apoiada por Fernando II, desenvolve-se como Ordem de Santiago. A aprovação pontifícia chega em 1175.
  6. 1172

    Fernando II doa Santa María de Castrelo e as suas terras aos Cavaleiros Hospitalários (6 de dezembro)
  7. 1281

    10 de março: Castrelo figura na permuta projetada entre Afonso X e o Hospital.
  8. 1307

    13 de outubro: ordens régias provocam detenções templárias em França e iniciam a crise que termina na supressão.
  9. 1312

    O papa Clemente V dissolve formalmente os Cavaleiros Templários no Concílio de Vienne
  10. 1371

    26 de setembro: Enrique II concede antigos bens templários ao deão e cabido de Santiago. O nome administrativo Tença do Temple surge depois, em 1393.
  11. 1444

    Abrahám de León serve a casa Sarmiento como mordomo. O aforamento conservado é um exemplo local mais preciso do que uma ligação Benveniste inferida.
  12. 1517

    O levantamento patrimonial de Quiroga inclui Santa María de Cartelle nas posses hospitalárias.
  13. 1542

    O património do Santo Sepulcro em Pazos de Arenteiro é incorporado em São João.
  14. 1625

    Jerónimo Feijóo autoriza o filho a concorrer por três anos de rendas de Quiroga.

Uma cruz conserva a memória de uma instituição; as escrituras e as contas revelam os direitos e o trabalho que a sustentavam.

Igrejas e documentos patrimoniais do Ribeiro

Ordens militares · Terra e vinho

Fontes e leituras

O Ribeiro · Avia · Miño · Arnoia

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