Comarca do Ribeiro · Ourense · Galiza
Castrelo de Miño
Um lagar romano, uma comunidade religiosa de origem régia e sete paróquias junto ao Minho. Siga as vinhas e travessias de Castrelo até à albufeira que transformou o vale e às pessoas que lhe resistiram.

Por que importa aquiCastrelo de Miño · Paróquias junto ao rio
Sete paróquias dão a Castrelo a sua escala local: Astariz, Barral, Castrelo, Macendo, Ponte Castrelo, Prado de Miño e Vide de Miño. Vestígios arqueológicos, igrejas, casas e travessias contam histórias junto ao rio. A albufeira mudou terras produtivas e caminhos diários; o capítulo segue essa transformação através das datas e das pessoas afetadas.
Paróquias junto ao Miño

Castrelo de Miño estende-se pela margem esquerda do Miño: terras ribeirinhas, encostas de vinha e aldeias altas ligadas por sete paróquias. Astariz, Barral, Castrelo, Macendo, Ponte Castrelo, Prado e Vide dão ao território a sua escala humana. O rio atraía caminhos e viajantes para as travessias; as elevações ofereciam lugares para viver, cultivar e sepultar os mortos.
A extensa superfície de água atual é uma camada recente. Antes da albufeira, os meandros rodeavam vinhas, pomares, hortas e prados. A igreja de Santa María continua a erguer-se sobre o rio, enquanto antigos banhos e terras de cultivo ficaram debaixo de água. A história de Castrelo acompanha tanto os lugares conservados como esse vale guardado na memória.
- Sete paróquias da região vinícola do Ribeiro
- 1968–1969: enchimento e inauguração da albufeira
As alturas antes da escrita

Acima do rio, as mámoas de Veiga de Arriba, junto a Reigoso, e Vedado do Roxón, em Macendo, assinalam lugares onde as comunidades pré-históricas reuniram os seus mortos. O inventário municipal conta cinco túmulos no primeiro conjunto e três no segundo. Perto, as covinhas, círculos e gravuras quadrangulares de Reigoso fazem da rocha outro vestígio duradouro da atividade humana.
As Cavadas, Macendo, Outeiro e Santa Lucía pertencem à paisagem posterior dos castros, povoados em lugares elevados. As suas histórias prolongam-se para além da imagem habitual da fortificação da Idade do Ferro. Em Santa Lucía, as primeiras escavações de 2016 começaram a revelar como mudaram a agricultura, a ocupação e os usos desta margem ao longo dos séculos.
- Veiga de Arriba: cinco mámoas; Vedado do Roxón: três
- Reigoso: covinhas e gravuras geométricas
Vinho e poder em Santa Lucía

Em Santa Lucía de Astariz, uma cavidade talhada na rocha conta uma história tangível: aqui se processavam uvas na época romana. A equipa de escavação situa a construção do lagar no final do século I d.C., o seu uso seguro no II e a possível continuidade no III. É uma instalação local com vida própria, não uma data aplicável a todas as vinhas do vale.
Os achados alargam a história para além do vinho. Entre cerâmicas, vidro e objetos metálicos surgem peças de cintos militares do período romano tardio. No estudo de 2024, os arqueólogos ponderam se o lugar se tornou depois um castellum, um centro fortificado junto ao Miño. A interpretação continua a ser uma proposta de investigação, mas os objetos situam Santa Lucía nas mudanças da Antiguidade tardia.
A escavação permite assim reconhecer duas atividades: produção numa margem cultivada e uma possível concentração posterior de poder militar. O lagar e as peças de cinto tornam visível essa longa transformação à escala de um lugar.
- 2016: primeira campanha de escavação
- Século II d.C.: uso seguro do lagar
- Peças de cintos romanos tardios sugerem um possível centro fortificado posterior
A rainha Goto e o mosteiro

No século X, Castrelo tornou-se um lugar de memória real e da vida religiosa de uma mulher. Sancho Ordóñez, rei da Galiza de 926 a 929, foi sepultado no seu mosteiro. A viúva Goto permaneceu ligada à comunidade. O historiador Amancio Isla Frez identifica uma doação real em 947, quando Ramiro II concedeu bens a Goto e ao mosteiro: a terra sustentava a casa religiosa e a posição da rainha dentro dela.
A história municipal identifica Goto como abadessa em 964. O seu percurso acrescenta mais do que um túmulo real: mostra uma viúva a organizar a vida posterior através da propriedade e do patronato religioso. O relato do cronista Sampiro sobre o envenenamento de Sancho I de León também situa o mosteiro na política conturbada do século X. Neste mesmo espaço sagrado continuariam séculos de vida paroquial.
- 929: Sancho Ordóñez é sepultado em Castrelo
- 947: Ramiro II concede bens a Goto e ao mosteiro
- 964: a história municipal identifica Goto como abadessa
Poder na passagem do rio

A passagem de Castrelo podia levar um viajante à outra margem do Miño ou colocar uma pessoa poderosa nas mãos de adversários. Seguindo a Historia Compostelana, a história municipal relata as detenções de Diego Gelmírez aqui em 1111 e 1121, durante os conflitos em torno da rainha Urraca e do seu filho. As posições fortificadas das margens faziam da travessia um encontro entre caminhos e autoridade política.
A desaparecida ponte de pedra perdurou numa tradição que a associava a San Telmo. Relatos posteriores recordam as cheias e as barcas que asseguravam a passagem. Em 1907 chegou uma nova ponte de ferro, após projetos elaborados durante décadas; as obras da estrada foram definitivamente recebidas em 1912. Para as aldeias, uma travessia estável mudou viagens quotidianas e transportes para Ribadavia e Ourense.
- 1111 e 1121: episódios de Gelmírez na Historia Compostelana
- Ponte de San Telmo: atribuição tradicional em relatos posteriores
- 1907: ponte moderna de ferro sobre o Miño
Vinhas e trabalho familiar

O lagar romano de Santa Lucía oferece um começo material à história do vinho de Castrelo. Mais tarde, foros e documentos de propriedade permitem seguir outra paisagem: pequenas parcelas cultivadas, rendas e terras transmitidas entre famílias. O vinho do vale nascia do trabalho repetido em lugares concretos, e a adega ligava a vindima à economia doméstica.
Hoje Castrelo integra a área de produção protegida do Ribeiro. O seu caderno de especificações descreve um território de pequenas parcelas de vinha, muitas antigas, cuja manutenção exige bastante trabalho. A Treixadura continua a ser uma casta branca importante. Nas encostas, viticultores e adegas mantêm produtiva esta paisagem, enquanto as vinhas herdadas guardam a memória de proprietários e colheitas anteriores.
- Castrelo pertence à área de produção protegida do Ribeiro
- A Treixadura é central em muitos brancos locais
- Foros e heranças relacionam parcelas com famílias concretas
Igrejas, registos paroquiais e pazos

Santa María de Castrelo reúne várias épocas num edifício. A abside românica vem da igreja medieval; as pinturas de cerca de 1560 trouxeram imagens renascentistas para o interior; a reconstrução de 1763 acrescentou outra camada. A igreja sobre o rio liga o antigo espaço monástico aos batismos, casamentos, funerais e festas das comunidades paroquiais posteriores.
As casas grandes pertencem ao mesmo mundo de aldeias. Troncoso, em Astariz, e Casa da Capela, em Barral, exprimem a importância das propriedades, do patronato e da posição familiar. Em Cavadiña, o município nomeia Antonio Araújo como proprietário em 1816. Igrejas, solares, adegas, moinhos e hórreos revelam em conjunto um campo moldado pela propriedade e pelo trabalho quotidiano.
Em Astariz, San Camilo de Lelis e San Lorenzo têm assinaturas que os datam de Madrid em 1775, por José Salvador Carmona. As esculturas são posteriores à morte de Pedro Martínez Feijóo, primeiro conde de Troncoso, em 1768; a encomenda deve distinguir-se do seu patronato paroquial anterior. As obras pertencem à história mais ampla do patronato das casas da paisagem vinícola.
- Santa María: abside medieval, pinturas por volta de 1560, reconstrução em 1763
- Astariz: esculturas assinadas por José Salvador Carmona, 1775
- 1816: Antonio Araújo como dono de Cavadiña na história municipal
Sinos, protesto e um vale submerso

A albufeira começou como um projeto de engenharia e tornou-se uma luta pelo futuro do vale. Em 1945 abriu-se o processo de utilidade pública; a autorização chegou em 1960. As terras férteis afetadas incluíam vinhas, pomares, hortas e prados. Perdê-las significava perder trabalho e rendimento doméstico, além de lugares da memória familiar.
A 30 de junho de 1966, os sinos de Barral deram o alarme quando apareceram os topógrafos. O historiador Julio Prada relata como mulheres e homens enfrentaram as obras, com um papel destacado das mulheres no incêndio dos barracões. As reivindicações sobre indemnizações e sustento receberam depois o apoio de opositores ao franquismo, advogados e intelectuais. Os participantes não deram todos o mesmo significado político ao protesto.
O acordo de 1967 precedeu a inundação, mas um anúncio do BOE de 8 de maio de 1968 ainda ordenava procedimentos de ocupação urgente de parcelas. O vale foi inundado em novembro de 1968; a inauguração chegou em 1969. Campos e antigos banhos desapareceram debaixo de água. A atividade náutica deu depois outra vida à albufeira, enquanto o protesto entrou na memória pública da Galiza.
- 30 de junho de 1966: os sinos de Barral reúnem os habitantes
- Maio de 1968: o BOE publica procedimentos de ocupação urgente
- Novembro de 1968: inundação; 1969: inauguração
Água quente debaixo da albufeira

Antes da barragem, a água quente acrescentava outro ritmo à margem. Em 1772, o médico Pedro Gómez de Bedoya descreveu os banhos de Puente Castrelo no seu estudo das fontes galegas. Descrições posteriores recordam tanques e a mistura da água termal com a do rio. Os banhos atraíam visitantes às aldeias e faziam parte da sua modesta economia local.
O estudo histórico e de campo de Jessica Silvares de Dios, apresentado em 2017, recuperou descrições, memórias dos habitantes e vestígios materiais, entre eles dois tanques de banho em Santa María. A albufeira submergiu aquela paisagem, cujos vestígios podem depender do nível da água. A sua história perdura no encontro entre essas pequenas estruturas, os documentos e as memórias de quem conheceu os banhos antes da transformação do vale.
- 1772: Bedoya descreve os banhos de Puente Castrelo
- 2017: Jessica Silvares apresenta o estudo histórico e de campo
Novos usos, memória viva

O parque náutico dá ao Castrelo atual um novo lugar de encontro junto à água. As instalações desportivas e os espaços culturais trazem atividade a uma albufeira cuja origem continua presente na memória local. Nas encostas prossegue o trabalho da vinha; dentro das aldeias, igrejas, adegas e casas herdadas sustentam outra continuidade mais pausada.
As escavações de Santa Lucía iniciadas em 2016 acrescentaram uma nova maneira de olhar este território familiar. Um lagar romano, uma abside medieval, uma ponte e uma barragem do século XX contam capítulos diferentes. Juntos mostram um Castrelo cuja paisagem mudou muitas vezes e onde os habitantes continuam a dar novos usos a lugares antigos.
- Atividade náutica e espaços culturais junto à albufeira
- Escavações e vinha renovam a relação com o território
Património
Sítios arqueológicos, igrejas paroquiais e casas grandes ligam a paisagem do Miño às comunidades que aqui viveram e trabalharam.
Igreja de Santa María
ReligiosoCastro de Santa Lucía
ArqueológicoIgreja de Astariz
ReligiosoMámoas da Veiga de Arriba
ArqueológicoCasa de Troncoso
CivilCasa da Capela
CivilAlbufeira de Castrelo
CivilÁguas termais
CivilPetróglifos de Reigoso
ArqueológicoIgreja de Prado de Miño
ReligiosoDatas-Chave
Pré-história
Mámoas, petróglifos de Reigoso e castros testemunham comunidades antigasSéculo II d.C.
A investigação arqueológica documenta com segurança o uso do lagar de Santa Lucía929
A história municipal situa a sepultura de Sancho Ordóñez no mosteiro947
Ramiro II concede bens a Goto e ao mosteiro964
A história municipal identifica Goto como abadessa1111 /1121
A Historia Compostelana relata conflitos e prisões de Gelmírez em Castreloc. 1560
Pinturas renascentistas decoram Santa María1763
Santa María é reconstruída em estilo barroco1772
Bedoya descreve os banhos de Puente Castrelo1775
José Salvador Carmona assina as esculturas de Astariz em Madrid1816
Antonio Araújo figura como dono de CavadiñaAntes de 1907
Após a perda da ponte antiga, barcas transportam viajantes através do Miño1907
A ponte moderna de ferro oferece uma travessia permanente do Miño1945 /1960
Processo de utilidade pública da barragem em 1945; declaração em 196030 de junho de 1966
Os sinos de Barral chamam os habitantes contra as obras da barragem1968 /1969
Inundação em novembro de 1968; inauguração da albufeira em 19692016
Começa a primeira campanha de escavação de Santa LucíaHoje
Vinhas, vida paroquial e atividade náutica formam o Castrelo atual
Castrelo de Miño · Paróquias junto ao rio
Fontes e leituras
- Concello de Castrelo de Miño · Historia
- Concello de Castrelo de Miño · Parroquias
- Pérez Losada et al. · Santa Lucía de Astariz · Minius 30 (2024)
- Amancio Isla Frez · Mulheres da família régia e Goto de Castrelo · Anuario de Estudios Medievales (2016)
- Julio Prada · A barragem de Castrelo e os protestos · Consello da Cultura Galega
O Ribeiro · Avia · Miño · Arnoia
Comece pelo lugar. Siga as pessoas.
Os vales do Avia, Miño e Arnoia são o fio deste guia. Leia a história regional, explore as casas e os apelidos e abra a árvore para ver as relações apoiadas por documentos.