
Herança Celta
Há três mil anos, os povos celtas chamados galaicos construíram povoados fortificados no alto das colinas por todo o território que se tornaria Ourense. Os seus castros, a sua arte e o seu espírito perduram na terra, na língua e na cultura da Galiza.
“Os galaicos são os mais belicosos de todos os povos da Lusitânia.”— Estrabão, Geographica, Livro III (início do séc. I d.C.)

Os Galaicos no Noroeste Peninsular
Os galaicos eram um conjunto de povos do noroeste da Península Ibérica, numa área que se estendia aproximadamente do Douro à costa cantábrica. Roma integrou grande parte deste território na província da Gallaecia, que incluía a atual Galiza. O geógrafo grego Estrabão descreveu as populações da região a partir de informações transmitidas por autores romanos. A arqueologia mostra uma cultura material partilhada e um padrão de povoamento marcado pelos castros, recintos fortificados que ocuparam muitas elevações do noroeste durante a Idade do Ferro.
Entre os povos mencionados pelas fontes antigas, os querquernos e os coelernos são associados, respetivamente, a zonas da bacia do Minho, da Baixa Limia e do vale do Arnoia, na atual província de Ourense. Essas áreas incluem Castrelo de Miño e Cartelle, localidades onde os apelidos Álvarez e Rodríguez aparecem em documentação de épocas muito posteriores. A proximidade geográfica não demonstra uma linha de descendência entre as populações castrejas e as famílias documentadas. Os habitantes dos castros construíam casas de pedra, trabalhavam metais, criavam animais e cultivavam os vales. A incorporação dos galaicos no mundo romano foi gradual, desde as campanhas de Décimo Júnio Bruto Galaico, em 137 a.C., até ao reinado de Augusto e às Guerras Cantábricas (29–19 a.C.).
- O nome dos galaicos passou para a designação romana Gallaecia, relacionada historicamente com o nome da atual Galiza
- Autores greco-romanos, entre eles Estrabão, Plínio e Ptolemeu, registaram numerosos populi no território da Gallaecia
- Os querquernos são associados à Baixa Limia e os coelernos ao vale do Arnoia; essa geografia não prova uma ligação genealógica às famílias modernas
- Castromao, perto de Celanova, é geralmente identificado com Coeliobriga, centro dos coelernos
- Décimo Júnio Bruto recebeu o cognome "Galaico" após a campanha de 137 a.C. contra os galaicos
- Muitos povoados da cultura castreja na região do Ribeiro estiveram ocupados entre a Idade do Ferro e o período romano

Guerreiros de Carvalho e Ferro
Os povos do sul da atual província de Ourense foram integrados no Convento Bracarense, uma circunscrição romana centrada em Bracara Augusta, a atual Braga. Plínio, o Velho atribuiu a este conventus 24 civitates e uma população de cerca de 285 000 pessoas, números que devem ser lidos como estimativas antigas. Entre os galaicos, os coelernos são associados à Terra de Celanova e ao vale do Arnoia, onde fica Cartelle. Castromao é geralmente identificado com Coeliobriga. Ali foram encontrados um trisquel vazado e a Tabula Hospitalitatis, placa de bronze de 132 d.C. que regista um acordo entre a comunidade local e a administração romana.
Os querquernos ocupavam a Baixa Limia, no sudoeste de Ourense. O nome tem sido relacionado com uma raiz indo-europeia associada ao carvalho, embora a etimologia não seja inteiramente segura. O forte de Aquis Querquennis, em Bande, foi construído no final do século I d.C. para alojar uma unidade militar ligada à Via Nova. A guarnição teria cerca de quinhentos homens; a sua identificação precisa e a relação com a Legio VII Gemina são matérias de estudo. Os límicos, na bacia do Lima, e os bíbalos, mais a leste, completam o quadro conhecido através das fontes. Séculos mais tarde, os apelidos Álvarez e Rodríguez seriam documentados nesta mesma região, sem que daí resulte uma continuidade genealógica demonstrável com estes povos antigos.
- Os coelernos são associados ao vale do Arnoia e à Terra de Celanova, região que inclui Cartelle
- O elemento *briga, presente em Coeliobriga, é geralmente interpretado como "altura fortificada"; a explicação completa do topónimo permanece discutida
- O nome querquernos tem sido relacionado com a raiz de quercus, "carvalho", mas a tradução "Povo do Carvalho" é uma interpretação, não uma certeza
- Aquis Querquennis, em Bande, é um dos acampamentos romanos mais bem estudados do noroeste peninsular
- Os límicos ocupavam a bacia do Lima; os bíbalos são situados mais a leste
- Plínio, o Velho incluiu estes povos entre as civitates do Convento Bracarense

Nomes e Camadas de Povoamento
O topónimo "Castrelo" deriva do latim castrum, "fortaleza", através de uma forma diminutiva. O nome de Castrelo de Miño tem sido associado ao Castrum Minei, uma fortificação que controlaria uma passagem do Minho, embora a identificação exata do sítio seja discutida. Em Ourense, muitos topónimos com "Castro-" ou "Castrelo-" coincidem com lugares fortificados ou elevações, mas cada caso exige confirmação arqueológica. Outros elementos estudados na toponímia do período castrejo, como *briga, aparecem em nomes antigos da Galiza, entre eles Nemetobriga e Brigantium, tradicionalmente relacionado com a atual Corunha.
O rio Arnoia, que atravessa Cartelle, conserva um hidrónimo pré-romano cuja origem exata continua a ser debatida. Nos vales de Ourense, nomes como Castro de Macendo, Castro de Outeiro e Castro das Cavadas refletem a densidade do povoamento antigo associado aos galaicos. A toponímia da região reúne, contudo, várias camadas históricas: elementos pré-romanos, formas latinas e contribuições germânicas ou medievais. Esses nomes ajudam a estudar a ocupação do território, mas não estabelecem por si só uma continuidade familiar desde a Idade do Ferro.
- "Castrelo" deriva do latim castrum, "fortaleza", por intermédio de uma forma diminutiva
- A tradição toponímica associa Castrum Minei ao nome de Castrelo de Miño e a uma fortificação sobre o Minho
- A província de Ourense conserva numerosos topónimos com "Castro-", embora nem todos correspondam necessariamente a sítios escavados
- O elemento *briga, com o sentido de altura ou fortificação, aparece em nomes antigos da Galiza, como Nemetobriga e Brigantium, relacionado com a Corunha
- O nome do rio Arnoia é pré-romano; a sua etimologia precisa não está definitivamente estabelecida
- A toponímia regista diferentes fases de ocupação e transformação linguística, não uma genealogia familiar contínua

Povoados Fortificados nos Vales do Ribeiro
Os inventários arqueológicos registam milhares de castros na Galiza, incluindo várias centenas na província de Ourense. Em Castrelo de Miño são identificados vários sítios fortificados, entre eles Santa Lucía, em Astariz, Las Cavadas, Macendo e Outeiro. Santa Lucía, com cerca de 2,75 hectares, foi escavado por uma equipa ligada à Universidade de Vigo. Las Cavadas tem sido relacionado com o Castrum Minei e com o controlo da passagem do Minho. Em conjunto, estes sítios mostram a importância estratégica do vale entre Ourense e Ribadavia, sem que seja possível reconstruir uma única rede defensiva a partir dos dados atuais.
O Castro de Trelle, na área de Cartelle, Toén e Barbadás, ocupa cerca de 3,5 hectares. Fotografias aéreas revelaram uma organização aproximadamente radial, comparada por alguns autores com a de San Cibrán de Lás. As campanhas arqueológicas de 2024 e 2025 identificaram estruturas habitacionais, elementos defensivos e materiais como uma fíbula, cereais carbonizados e cerâmica de contacto romano; a interpretação do conjunto continua em curso. A tradição erudita relaciona o antigo nome Abobriga com a área de Ribadavia e o rio Avia, mas a localização, a tradução e a continuidade entre o povoado antigo e a vila medieval devem ser apresentadas como hipóteses.
- Os levantamentos costumam citar mais de 5 000 castros na Galiza e várias centenas em Ourense; os totais dependem dos critérios de inventário
- Em Castrelo de Miño estão documentados ou propostos vários sítios: Santa Lucía, Las Cavadas, Macendo, Outeiro e o local tradicionalmente associado ao Castrum Minei
- O Castro de Trelle ocupa cerca de 3,5 hectares e foi alvo de campanhas arqueológicas em 2024 e 2025
- A associação de Abobriga à antiga Ribadavia é uma hipótese toponímica e arqueológica, não uma identificação definitiva
- O Monte de O Castro, em Cartelle, conserva no próprio nome a memória de um possível povoado fortificado
- Casas circulares de pedra, muralhas, fossos e uma croa ou recinto superior são elementos frequentes, mas não universais, dos castros

O Que a Arqueologia Permite Ver
O Castro de Santa Lucía, em Astariz, no município de Castrelo de Miño, ocupa cerca de 2,75 hectares e começou a ser escavado por uma equipa da Universidade de Vigo em 2016. As estruturas circulares de pedra, associadas à cultura castreja, coexistem com construções retangulares de época romana e ajudam a observar a transformação gradual do povoado. Um lagar rupestre do período romano, datado por alguns estudos de cerca de 235 d.C., é relevante para a história regional do vinho, embora não deva ser apresentado sem qualificação como prova de uma tradição contínua até à atualidade.
A Cidade de San Cibrán de Lás, ou Lansbrica, situa-se a cerca de 18 quilómetros de Ourense. Com aproximadamente 10 hectares, é um dos maiores castros da Galiza. Conserva recintos amuralhados, ruas, sistemas de drenagem e uma estrutura balnear por vezes comparada com as construções de pedra formosa. Em Castromao, identificado com Coeliobriga, foi encontrada a Tabula Hospitalitatis de 132 d.C., documento importante para compreender a integração das comunidades locais na Gallaecia romana. Os torques de ouro atribuídos à Idade do Ferro e conservados no British Museum ilustram a qualidade da metalurgia regional.
- San Cibrán de Lás, com cerca de 10 hectares, é um dos maiores castros conhecidos da Galiza
- A Tabula Hospitalitatis de Coeliobriga, datada de 132 d.C., regista um pacto entre a comunidade local e um representante romano
- O Castro de Santa Lucía, em Astariz, Castrelo de Miño, conserva estruturas castrejas e romanas, incluindo um lagar rupestre
- O Castro de Santomé, perto de Ourense, foi identificado em 1969 e revelou áreas de atividade artesanal
- Os torques de ouro da região, hoje no British Museum, são exemplos destacados da metalurgia da Idade do Ferro
- Os petróglifos de Reigoso, em Castrelo de Miño, são anteriores ou paralelos às primeiras fases castrejas; a cronologia proposta é ampla

Deuses, Carvalhos e Fontes Termais
A província de Ourense conserva um conjunto importante de inscrições dedicadas a divindades indígenas, fonte essencial para o estudo da religião dos galaicos. Bandua, por vezes aproximado do Marte romano, aparece em várias inscrições votivas da região, incluindo a fórmula "Bandua Lansbricae" associada a San Cibrán de Lás. Nabia é conhecida por numerosas dedicatórias na Gallaecia e na Lusitânia e tem sido relacionada com rios, vales e fertilidade. As fontes escritas de autores como César descrevem cultos arbóreos noutros povos célticos; a aplicação direta desses relatos ao noroeste ibérico deve ser feita com prudência.
As águas termais constituíram um elemento importante na ocupação antiga de Ourense. As Burgas brotam no centro da cidade a mais de 60 °C e o local forneceu testemunhos de uso romano e de culto, nomeadamente ligados a Reve. Bormanicus é uma divindade termal documentada noutros pontos do noroeste peninsular, mas a sua presença específica nas Burgas não está solidamente estabelecida. O acampamento de Aquis Querquennis foi construído junto de nascentes termais na terra dos querquernos. Em Castrelo de Miño, tradições locais associam os banhos de O Diestro a ocupações antigas; a existência e a cronologia de fundações castrejo-romanas exigem confirmação arqueológica. Estes exemplos ajudam a compreender a importância da água na Galécia, sem pressupor uma continuidade religiosa ininterrupta.
- Bandua é uma divindade indígena conhecida por várias inscrições no noroeste peninsular
- Nabia aparece em dedicatórias da Galécia e da Lusitânia e é frequentemente associada à água e à fertilidade
- As Burgas, em Ourense, ultrapassam os 60 °C e conservam testemunhos de utilização e culto em época romana
- Aquis Querquennis combina um acampamento romano com a paisagem termal da Baixa Limia
- A ligação dos banhos de O Diestro, em Castrelo de Miño, a estruturas castrejo-romanas deve ser tratada como uma hipótese a confirmar
- As inscrições de Ourense documentam cultos indígenas, mas não permitem reconstruir por completo as crenças ou a sua continuidade posterior

A Identidade Celta na Galiza Contemporânea
A gaita galega ocupa um lugar central na música tradicional da Galiza e aproxima-a, no plano cultural contemporâneo, de tradições de gaita da Escócia, da Irlanda e da Bretanha. A participação galega em festivais e redes associados às Nações Celtas exprime uma identidade cultural moderna; não prova uma transmissão musical contínua desde a Idade do Ferro. O mesmo cuidado se aplica às muiñeiras: são danças tradicionais bem documentadas em épocas recentes, mas a sua origem pré-romana não pode ser demonstrada. A escola de gaitas e pandeiretas de Castrelo de Miño representa, de forma concreta, a continuidade atual da música local.
Outros elementos da paisagem e do folclore galegos são frequentemente incluídos nesta leitura céltica. O hórreo partilha a função de armazenamento elevado com estruturas antigas, mas as formas hoje preservadas pertencem sobretudo a períodos históricos posteriores e não descendem de modo demonstrável de um único modelo da cultura castreja. Celebrações ligadas ao Samhain, narrativas de meigas e a Santa Compaña fazem parte da cultura popular, embora a sua relação direta com práticas pré-cristãs seja difícil de estabelecer. A língua galega contém palavras atribuídas a substratos pré-latinos, algumas possivelmente célticas, mas o alcance desse legado continua a ser estudado.
- A gaita galega aproxima a Galiza de tradições musicais da Escócia, da Irlanda e da Bretanha no quadro cultural contemporâneo
- A escola de gaitas e pandeiretas de Castrelo de Miño transmite repertórios tradicionais a novas gerações
- O hórreo é um elemento característico da paisagem rural galega, mas a sua forma atual não pode ser atribuída diretamente à Idade do Ferro
- A presença da Galiza em encontros ligados às Nações Celtas reflete uma identidade cultural moderna
- A Santa Compaña, as meigas e outras tradições pertencem ao folclore galego; a sua origem pré-cristã não é sempre demonstrável
- A língua galega conserva vocabulário pré-latino, parte do qual tem sido interpretado como céltico
Património
Castros, artefactos e museus que preservam a herança celta do Ribeiro e da província de Ourense.
Datas-Chave
“A terra garda nos seus castros a memoria dos primeiros poboadores.”— A terra guarda nos seus castros a memória dos primeiros povoadores.